Por um design eco-decolonial

Em 12 de novembro de 2021, fiz uma fala dentro da programação do evento internacional Interaction Latin America - ILA21. Trago aqui boa parte da fala transcrita, para quem não pode participar na ocasião ;)

Dentro do meu campo de pesquisa e prática, os nomes de teóricos do design que vêm à mente primeiro são todos do norte, todos homens.

Recentemente temos visto algumas mulheres e uns poucos nomes do Sul, mas ainda muito pouco. E o que isso quer dizer? Que nossa prática projetual é colonizada. É tão colonizada quanto nosso pensamento, o mais íntimo do nosso ser. O modo como concebemos e explicamos a vida, vem de homens: Descartes, Bacon, Copérnico, Galileu, Newton, Kepler, entre outros. Homens. Brancos. Nobres ou patrocinados pela nobreza, clérigos ou patrocinados pela Igreja. Todos reverenciados como os pais da ciência, pais da filosofia, como base do pensamento científico ensinado nas universidades de todo mundo “ocidental” até hoje.

Deles herdamos a perspectiva da separação entre homem e natureza, espírito e matéria; herdamos o pensamento que divide tudo em caixas rotuladas. Herdamos o apreço pela máquina e a visão do universo como uma máquina. Eu não sou uma máquina. Você tampouco é. Eu e você somos organismos vivos, somos vida, somos feitos da mesma matéria que as estrelas, somos o universo inteiro e, ao mesmo tempo, somos absolutamente únicos em todo esse mesmo universo.

O pensamento desses homens se desenvolvia ao mesmo tempo que os colonizadores invadiam e saqueavam as terras de Abya Yala e Pindorama — as Américas e o Brasil — entre os séculos XV e XVIII. O pensamento deles nos colonizou e coloniza ainda — tanto quanto as ações concretas dos homens que aqui desembarcaram. Ok, mas o que esse pensamento trouxe consigo no âmbito do design?

O antropocentrismo e o eurocentrismo. Que se refletem no Human-Centred Design ou, por exemplo. O design centrado no humano, coloca apenas o ser humano — representado usualmente como o homem banco nobre — no centro da atenção projetual, no centro do universo da existência. Porém, se entendemos que estamos, realmente e neste exato momento, na emergência global causada pelo humano; emergência que não se refere só à climática, mas que junta economia, política, democracia, sociedade, família e valores. Tudo no ponto da ruptura. Se entendemos que estamos nesse ponto, oque podemos fazer? Criar um novo mundo, a partir da consciência do que estivemos fazendo de errado até aqui.

Então, minha proposta é que a gente possa, em um primeiro momento, contrapor o antropocentrismo com o biocentrismo e o eurocentrismo com o movimento decolonial, a decolonialidade.

Não negando os avanços do passado e entendendo que contrapor é apenas um pontapé inicial para nos fazer enxergar uma alternativa. Polarizar (contrapor) não é uma boa saída, como estamos vendo, mas é um recurso inicial válido.

Vamos nos esforçar para buscar novas perspectivas, mais condizentes com a lógica da vida. Vamos rever nosso mapa, nossas referências, nossas práticas projetuais, nossos valores e as escolhas que fazemos como designers, pois nossa responsabilidade é enorme. Vamos rever nosso vocabulário e as palavras que usamos, pois palavras têm poder.

Por exemplo, meu projeto, o Design Ecossistêmico, tem como objetivo o bem viver. Teko porã. Eu não quero o bem-estar. Descolonizar pressupõe o entendimento da nossa condição de colonizados, que perdura até hoje, no pensamento e também na economia. Ou de saem os insumos básicos que alimentam as indústrias do mundo e que dão o lucro do produto industrializado para as empresas cujas sedes estão no Norte global?

Seriam necessárias de cinco a sete Terras se toda a população global tivesse o mesmo padrão de consumo e vida dos Estados Unidos, por exemplo. De onde vêm os “recursos” que eles usam sete vezes mais do que poderiam? Eu e você sabemos que vêm sobretudo do Sul Global. Enquanto o Norte depender dos “recursos” do Sul, e enquanto nós fecharmos os olhos para esse fato, o projeto colonizador vai continuar, se reinventando e renomeando conforme a narrativa da vez. E “recurso”, aliás, é uma palavra que demonstra a nossa mentalidade que enxerga o humano superior ao restante da Natureza.

O termo “bem-estar” é isso: posse material, quantidade, fast food, fast-fashion, o descartável, a bolsa de 500 mil dólares, o carro do ano, o telefone do ano, a moda da estação, o jatinho particular, a cobertura de um milhão, as férias no caribe, enquanto assistimos a sexta extinção em massa de espécies que conosco dividem esse planeta.

Bem-estar é um mito, é uma fabricação da mentalidade que se crê superior à natureza, que se vê apartada dela. Estamos nos matando junto com os outros, porque todos dividimos a mesma atmosfera— só há UMA Terra.

Uma outra via

O termo bem viver é outra forma de enxergar a vida, que fomenta a diversidade e a pluralidade, pois entende a nossa interdependência: eu dependo do sol, da água, da lua, do ar, da terra e de inúmeras pessoas e outros seres para viver. Minha vida tem o mesmo valor que todas as outras vidas — pois delas eu dependo.

Essa é a lição mais importante de todas: somos todos interseres; nós existimos por causa dos outros, nós vivemos porque os outros vivem conosco.

Não existe um único ser que seja “independente”, como o mito do self-made man. Todos dependemos de todos, não somos senão interdependentes. A história do herói que salva, sozinho, o mundo da destruição é outra fábula — é Hollywood, é norte global, é narrativa de pão e circo. Não existem heróis que não tenham dependido da terra para se alimentar, da água para sobreviver, de uma mãe que lhe deu a vida e de muitas pessoas que lhe ensinaram os caminhos. Heróis são os nossos indígenas, que há 520 anos sobrevivem ao massacre, juntos, conectados com a natureza que lhes dá abrigo e sustento.

Quão mais diversa for a Natureza, mais vida, mais alimento e mais abundância eu tenho. A escassez também é uma narrativa de controle. Que diz que todos nós precisamos lutar pois não há suficiente para todo mundo. O sistema agroflorestal, por exemplo, fornece uma abundância que extrapola em muito a meia dúzia de espécies que o sistema da monocultura coloca no nosso prato.

Vamos voltar para o design. Se você é um designer de produto, que vai fazer uma cadeira de madeira, você checa de onde vem a madeira? Se checa, muito bem! Se tens preocupação ecológica, vai escolher madeira certificada, provavelmente de reflorestamento. Você sabia que a maior parte dessas florestas, aqui no Brasil, usam o eucalipto e o pinho, duas espécies importadas, que não pertencem ao nosso ecossistema?

A vantagem delas é que elas crescem rápido, é verdade, mas quem parou para analisar o benefício ecossistêmico das mesmas? A quais espécies de pássaros e insetos elas dão abrigo? Você sabia que o eucalipto, dependendo de onde for plantado, é capaz de secar nascentes e lençóis freáticos? Quando escolhemos o eucalipto para reflorestamentos voltados à indústria da celulose ou moveleira, estivemos pensando em beneficiar qualquer espécie para além do Homo sapiens?

Essa é a base do pensamento das epistemologias do sul: a não dualidade entre homem e natureza. A não superioridade do homem frente a mulher, pois nós somos natureza, nós todos somos uma mesma vida, dividida com as montanhas, as árvores, os pássaros, os fungos.

Você vai me perguntar como podemos projetar para o bem viver, então, certo?

Por um design eco-decolonial

Olha, estamos há mais de 500 anos projetando para os homens. E essa prática projetual evoluiu e se transformou muito, nesse tempo todo. Não vai ser em alguns poucos meses, ou até alguns poucos anos, que teremos respostas muito prontas para essa pergunta. É preciso tentar, é preciso testar. E precisamos estar juntos nesse caminho. Mas uma coisa eu posso garantir: Regenerar é preciso! Precisamos regenerar nós mesmos, nossa comunidade, nossas localidades, nossos ecossistemas.

Isso é o Design Ecossistêmico: pensar que todo projeto deve levar em consideração o seu próprio ecossistema. Como pode uma parada de ônibus contribuir com a fauna e a flora da Mata Atlântica, ecossistema nativo de São Paulo? O design de uma mesa, um sofá, uma escova de dentes, uma embalagem de cosmético, um porta-copos? Como cada uma dessas coisas pode gerar mais vida, pode beneficiar seres para além dos humanos?

Porque cada coisa dessas usa “recursos”, usa “matéria-prima”, usa nossos parentes interseres. Cada coisa dessas cava um buraco mais fundo na montanha, despeja uma gota a mais de químico no rio, emite um quilo a mais de gás carbônico na atmosfera. Compensar a pegada de carbono comprando vale de empresas que se encarregam disso é pouco, é nada, é terceirizar a responsabilidade que nos cabe, é não entender quão urgente é a nossa situação. É preciso sujar as mãos — de terra; de vida.

Um design eco-decolonial, então, vai primeiro encarar de frente os nossos vícios e as raízes enviesadas do nosso olhar, depois vai exercitar incansavelmente uma nova forma de ver e fazer, pois a redefinição, a mudança de rumo, é um exercício diário. Também precisamos entender que estamos todos juntos e ninguém tem a receita certa—julgar quem está um passo atrás não vai nos ajudar. Precisamos inspirar, sermos o melhor exemplo que pudermos ser, na família, no trabalho, na comunidade, sabendo que todos vamos errar muitas vezes, até conseguirmos acertar.

Mas, já temos alguns indicativos, dentro do vasto campo do design para ecologia, do que podemos fazer:

  1. Não fazer — já temos coisas demais no mundo!
  2. Pensar para a durabilidade — não “seguir a moda”
  3. Projetar para escalas locais — massificar é, seguidamente, desperdiçar
  4. Usar recursos locais — pensando no bem de todo ecossistema local
  5. Reutilizar, sempre — mandar consertar, mesmo que custe igual ao novo
  6. Projetar para os corpos locais — não existe “design universal” que sirva para a nossa diversidade
  7. Usar o seu próprio idioma — não tem call, overview, Head de Design, tem ligação, panorama, líder — descolonize sua língua
  8. Pensar como natureza — você é natureza!
  9. Usar o tempo da terra — diamantes não são feitos em um ano fiscal, nem jazidas de petróleo, pense no longo prazo.

E, por fim, se a gente agir com propósito, com o coração e com valores pautados no amor e na interdependência, as próximas gerações seguirão melhores passos, pois elas nos espelham, assim como nós estivemos espelhando aqueles que nos trouxeram até aqui, até a ruptura. Olhe-se no espelho. Que exemplo você está criando e deixando de legado?

Eu, Coral, posso não viver o mundo que estou criando com minhas ações, pois o curto prazo é um espaço temporal do mercado, não da natureza e não da regeneração, que operam no tempo geológico, no tempo da evolução da vida. Eu posso não viver, mas meu futuro eu e as novas gerações viverão. E eu quero deixar para elas, para nós, para o nosso futuro, o mundo mais lindo que eu puder imaginar.

Por isso eu digo que a gente una nossas práticas e nossos sonhos, te convido a vir junto, por um design eco-decolonial.

Por Coral Michelin
para o ILA21, em novembro de 2021.

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Designer ecossistêmica, Mestre e doutoranda em Design. Pesquisadora em inovação, ecologia e métodos de design. Ativista da ecologia, poeta e ecofeminista.

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Coral Michelin

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Designer ecossistêmica, Mestre e doutoranda em Design. Pesquisadora em inovação, ecologia e métodos de design. Ativista da ecologia, poeta e ecofeminista.