O regresso presencial em Éssepê (1/2)

Esses dias une personne, ao comentar sobre a testagem de seus colegas de trabalho, me deixou meditativa sobre o momento presente, em que vivenciamos a vida retomando seus passos em São Paulo — e como isso se relaciona com a necessidade de testagem. Porém, quero relacionar com algo que ocupa todas horas do meu dia: a educação.

A Concrete Jungle está voltando à vida pós-quarentena, pela primeira vez de verdade, desde março. Por mais que o comércio esteja na segunda ou na terceira fase do plano de retomada, já com bastante gente circulando nas ruas, as escolas não haviam regressado ainda. Bom, ao menos não segundo o protocolo oficial.

Segundo o protocolo flex — que depende da banda para qual você toca — tem escola que já voltou, como quem não quer voltar, só porquê têm de agradar gregos e troianos e há nesta vida maluco pra tudo, de arminha na mão. E tudo depende do que dizem os números, aqueles que correspondem às contas bancárias e também aqueles dos parágrafos e incisos do ano de dois mil e vinte. O ano que tudo pode.

O que tenho visto acontecer, nesse momento tão delicado, é mais uma reificação do humano. Sua eterna numerificação. Somos todos bits, prontos para o abate, prontos para fazer girar a máquina, prontos pra correr atrás das grandes cenouras laranjas fluorescentes, do tamanho da quantidade de químicos que são obrigadas a processar nessa terra envenenada…

Mesmo assim, não desisto de pensar em saídas e em como podemos, do alto da nossa esfera pessoal, eu com eu, mudar o rumo dessa prosa chamada humanidade pandêmica. Pois, sempre, invariavelmente, após a tempestade vem o sol, a luz, o calor, o brilho. Então, mes amis, trago aqui para nossa reflexão coletiva alguns sincerocídios, que têm o propósito explícito de incomodar. Com isso, espero provocar maneiras de vibrarmos juntos, na direção dessa luz que tá chegando.

A primeira parte do texto discorre sobre o regresso do setor educacional privado em São Paulo, a partir de uma lente crítica. A segunda parte, vai trazer à tona o design como articulador de retomadas mais humanas, incluindo nisso a sugestão para testagem em massa.

Educação, o eterno ponto de partida

Até onde eu tenha conseguido entender — pois confesso que dei uma desconectada de notícias que estavam travando o HD neuronal — as escolas e universidades públicas declararam que as aulas permanecem à distância até o final do ano, aqui em São Paulo.

Na mão oposta das públicas, as escolas e universidades particulares ou já voltaram ou estão voltando para o presencial. Se entendemos as regras do jogo, conseguimos compreender o motivo delas voltarem. Se você é uma empresa e você fica sem clientes, você deixa de existir. Se deixa se existir, muitos não levam comida para casa. É assim que a roda gira, a gente sabe.

Vamos, a cargo de complexificar a situação, “analisar” o resultado, no ensino, da nossa falta de identidade própria e da nossa síndrome de vira-lata. Somos um povo que terceiriza a própria educação, já que, afinal, o outro sempre sabe mais: tanto na pública quanto na privada, são as escolas que precisam fazer o papel de educadoras das famílias. Ao mesmo tempo, por sermos animais sociais — como os macacos — , imitamos o que colocamos a nós mesmos como referência: o mito. O herói, o colonizador, o outro colocado num pedestal, chute-me mais, por favor!

Em um âmbito geral, isso pode explicar a postura recorrente que temos e pode ser expressa numa frase do tipo: “eu paguei, eu barão, você, escravo”. Eu cliente mando, você, obedece. Quando levamos essa postura para a esfera educacional, parece que escutamos nitidamente — Eu quero que você faça o que eu tô dizendo pra você fazer e não tenho tempo de fazer eu mesmo. E que eu não saberia fazer pois ninguém me ensinou, já que há 500 anos terceirizamos nossa educação para o outro.

Engraçado, nessa análise, perceber que o vilão, o barão, somos todos nós, né? Levanta a mão aí quem não é uma peça da mesmíssima engrenagem? O resto, que não levantou a mão e que leu até aqui, segue o canal, dá jóinha, põe um comentário (aviso: contém ironia).

Em tempos mais recentes, temos visto o crescimento dos grandes conglomerados da indústria do ensino, esses que adquirem todas instituições pequenas que encontram pelo caminho e que demitem seus professores usando um pop-up no ambiente virtual de aprendizagem. Sim, isto aconteceu, durante a pandemia: centenas de professores foram demitidos, via mensagem automática, quando entravam para fazer seus trabalhos (registrar faltas, lançar notas ou subir conteúdos) no portal acadêmico dessa instituição privada, pertencente a um desses “gigantes”, cujos “board of directors” pensam zeros e uns.

Ouvi, esses dias: “antes, a educação não era considerada uma indústria!”, dito como se o fato de agora ser, fosse uma conquista. Não temos mais alunos, temos clientes; não temos mais pedagogos, temos gestores. E a reificação do humano, transformado em escolhas quantitativas, nesse momento tão singular da nossa história, é muito delicada. Esqueça cidadãos, estamos formando números.

Sem educação, sem identidade, sem ética

Mas, atenção! Não estou dizendo que voltar seja um erro. Estou apontando que não temos uma nação ética — precisaríamos criar uma identidade própria, para tanto — o suficiente para poder “julgar” adequadamente as implicações dessa volta. São MUITAS variáveis a se considerar; sendo que algumas delas questionam a validade de todo sistema que nos trouxe até aqui. Um povo que há cinco séculos idolatra o estuprador, não vai querer olhar para suas próprias correntes — como justificar que a liberdade, o crescimento, a identidade, o amor próprio… só dependiam de nós mesmos?

De qualquer modo, uma coisa é certa: as escolas privadas voltarem significa que, salvo casos em que as pessoas estejam em posição de recusar, voltaremos todos. Mais patrões fora de casa, mais operários fora de casa. Espero que tenhamos sido eficientes na “estratégia” de manada, rebanho, alcatéia, cardume, os peixes do Senhor, oh! tão ingênuos. Não existem heróis.

Efetivamente, não acho que estejamos preparados para assumir qualquer tipo de responsabilidade, should I stay or should I go, agora. 30.000, em São Paulo. O lucro da indústria? Não, as covas.

Mas existe uma coisa que ajuda e que se conecta ao momento derradeiro do regresso: o bom design como processo condutor dos planejamentos para essa retomada.

A título de conclusão dessa primeira parte, deixo apenas uma pergunta final: quantos números têm ocupado seus pensamentos — suas preocupações, seus sonhos — , atualmente?

[Continuará na Parte 2]

Coral Michelin,

(*) Tem gente que fala em “desmonte”. Porém, desmonte faz parecer que houve, em algum momento, algo montado para, então, ser desmontado. Nunca houve SUS como deveria, pois nunca houve investimento como precisaria para criar um serviço de primeira qualidade que pudesse servir a toda população.

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Designer ecossistêmica, Mestre e doutoranda em Design. Pesquisadora em inovação, ecologia e métodos de design. Ativista da ecologia, poeta e ecofeminista.

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Coral Michelin

Coral Michelin

Designer ecossistêmica, Mestre e doutoranda em Design. Pesquisadora em inovação, ecologia e métodos de design. Ativista da ecologia, poeta e ecofeminista.