Das difíceis decisões ou Um salto para a incerteza

O que fazer, no meio da pandemia, segurando depressão e burnout, tentando achar propósito na vida, no trabalho e nas relações?

Essa é a pergunta do milhão, quem souber responder de forma personalizada — afinal cada um/a tem a sua realidade — ganha o paraíso eterno. Eu, como não acredito em paraíso algum, fico quebrando a cara tentando achar respostas. Sem ter muitas em mãos, venho dividir um relato, costurando esse meu momento com o nosso contexto, com esperança de compartilhar inspiração… ou acalanto.

Um fato: ainda estamos em pandemia. E nela permaneceremos por algum tempo, a ver pelo que ocorre nos países à nossa frente, em termos de estratégias de vacinação e proteção. Depois que a pandemia finalmente passar, vamos amargurar um longo período de recessão econômica, como sempre desigual, em que o Norte Global segue explorando o Sul Global, suas eternas colônias extrativistas. É até engraçado ver os palhaços do Planalto comemorando PIB: PIB de quem, desgraça, com todos ecossistemas brasileiros virando pasto; a milícia comandando garimpo e madeira ilegal de desmatamento; o mais corrupto Exército que esteve no poder apoiando estratégias de genocídio — quer pela luta armada (vide povos indígenas) ou pelo descaso em tratar corona com cloroquina no Amazonas? Quem consegue comemorar o crescimento de um Produto Interno Bruto fruto de tantas vidas perdidas? Que economia é essa que tantos ainda defendem?

E claro que a coisa não pára por aí. Temos, já em pleno curso e sem sinal de retrocesso (pois as medidas de mitigação são muito, mas muito, aquém do necessário), as grandes mudanças climáticas que transformarão profundamente a geopolítica mundial. Migrações em massa devido às consequências do clima não são de agora — no Brasil, vimos isso ocorrer com os nordestinos algumas vezes, ao longo de nossa jovem história. O boom populacional de capitais como São Paulo vem em boa parte desse fluxo diaspórico. Então, imagine, o que poderá acontecer, quando a emergência climática for efetivamente sentida em TODO mundo? O que vai virar deserto? O que vai virar mar? Quantos serão forçados a sair de suas casas, seus países, suas culturas? Que fronteiras estarão abertas para quem?

É esse contexto e são essas questões que mexem com minhas entranhas, me fazem refletir sobre quem sou e sobre os rumos que minha força produtiva — minha força laboral e intelectual — devem tomar, em busca de uma nova realidade para todas/os nós. Sobre essa transição venho falar.

Que novo normal?

Apesar de toda clareza que estudiosos do mundo inteiro trazem, para prever esses cenários econômicos, climáticos, políticos e culturais distópicos, parecemos estar vivendo uma fase persistente de negação, confabulando pelo “novo normal”. Fazendo girar a mesmíssima máquina que nos trouxe até aqui, a que produziu ESSE normal: da desigualdade, da exploração, da corrupção, dos mitos, das aparências nas redes digitais onde moeda é ou felicidade ou lacração.

Veja, há outro fato inegável: não há como mudar essa “máquina” (o capitalismo colonizador, vamos chamá-la assim) da noite pro dia. E todos nós precisamos pagar as contas, isso é bem verdade. Mas quantos estamos encarando os fatos de frente, sem filtro do Instagram? No osso, naquilo que dói pois incomoda, pois vem de um lugar de privilégio, de conforto, de branquitude, de apego a certezas que — pasmem! — não existem?

Nos encontramos em um loop: um calendário com todas 24 horas dos dias sugadas para fazer a máquina girar. Isso foi construído ao longo de séculos de narrativas: do individualismo, da monogamia, da monocultura agrícola, da riqueza como fonte de felicidade, do self-made-man (nunca woman, imagine), de raças arianas, bruxas e tantas outras fábulas que nos contaram para nos distanciarmos de nossa verdadeira natureza. Que natureza é essa? Bom, isso é matéria para outro escrito, mas segue no fluxo aqui, apenas tenha em mente que você não é um/a, você é a soma de todas e todos. Todas/os juntos conectados na mesma malha da vida que recobre todo o planeta.

Voltemos ao ponto: estamos imersos na mais completa distopia, sem hora para ela virar conto de fadas, sem tempo de pensar nas escolhas inconscientes que fazemos e nos deixam presas/os na corrida dos ratos, alimentando o sistema bosta que prega por esse ridículo “novo normal”. Somos peças automatizadas; objetos.

E tudo isso, em plena pandemia.

Não sei você, mas eu, desde 13 de março de 2020, tripliquei minha jornada de trabalho: como coordenadora e professora de uma graduação, tive de me adaptar às aulas remotas da sexta para a segunda, sem contar com apoio institucional. Instruir professores/as e alunos/as naquilo que nem eu sabia ainda como fazer. Do dia pra noite as já extensas 10 horas de trabalho viraram 15 ou 16. Sem fim-de-semana, sem feriado. Junto com isso, veio a sobrecarga do trabalho doméstico, tudo com o ritual da entrada, do álcool, da saída, dos descartáveis (e o peso na consciência, com tantos descartáveis?!) e dos cuidados redobrados com a mãe sexagenária. Sozinhas, sem comunidade de apoio, sem vizinhos, sem família perto. Para piorar a overdose, ainda teve o doutorado, entrando no seu recém segundo ano, em 2020.

Me queixando e sabendo de todos meus muitos privilégios. O que é duro de roer, muitas vezes, pois quando o propósito de uma vida assim nos escapa à razão, não há privilégio que anime. Para quem estou vivendo essa vida? Quem se beneficia com o meu trabalho, as minhas inúmeras horas sem qualidade, sem dormir, sem lazer, sem prazer? Que diferença minha vida faz? Nisso, eu, assim como muitas/os outras/os, me vi às voltas com episódios de depressão, ansiedade, e desconfio até que tenha segurado uns dois burnouts no meio do caminho de lá pra cá.

Em 2021, segundo ano de pandemia, entre a morte de familiares, fechamento de uma vida inteira na minha cidade natal e até um total esvaziamento das amizades e das relações, vieram e se consolidaram muitas perdas. Descobri que não ia mais ficar onde estava trabalhando e tive sorte de ser chamada para onde estou hoje, atuando com inovação no poder público municipal de São Paulo, maior cidade do país. O que parece ser uma renovação com bom propósito, não?

Só que, todo esse percurso de mudanças, luto e desgaste extremo, foi feito no mesmo piloto automático mencionado. Sem tempo, irmã. Engole e toca o barco, o relógio não pára. Mas, em 2021, o que estava parado era o meu doutorado. COMO dar conta de tudo? E ainda manter um mínimo de sanidade, para poder controlar os burnouts da vida?

Um salto na incerteza

Pois. A teoria dos sistemas complexos diz que é do momento mais entrópico, de maior caos e turbulência, que surgem novas estruturas criativas, ou seja, novas possibilidades e horizontes. Com a troca de emprego, resolvi fazer uma mudança de modus operandi também. Passado o período de adaptação, tentaria retomar um ritmo menos destrutivo de trabalho. Parei para pensar em todas as coisas que eu não estava fazendo por mim mesma, para entender o que é que poderia dar sentido à minha vida, em um momento histórico de transição planetária, sabendo que eu sou apenas um peidinho cósmico nessa dança fabulosa.

E me dei conta que a única certeza que temos é a incerteza. Não sabemos, simplesmente. O que será o ano que vem, os próximos 10, 20, 30, 100 anos. Não temos como saber, somos 8 bilhões de pessoas aqui e agora criando o que será, e não temos tempo para pensar sobre o que estamos construindo — todos no automático, repetindo as mesmas narrativas, os mesmos erros condicionados por gerações e gerações, o mesmo medo de abrir mão do que quer que seja, quase sempre mitos (dinheiro é um mito, veja só).

Precisamos de TEMPO para pensar. O tempo do ócio, já tão amplamente defendido. O tempo que não é o da máquina, mas é o do sentir, do escutar, do absorver, do deixar-se tocar pelas pessoas e pelos seres em geral que, conosco, compõem e vivem essa imensa sinfonia da vida. Precisamos mais de coletivos e menos de indivíduos nessa orquestra, para que a música saia harmoniosa, saia no “tempo” certo.

Mudanças dão medo pois elas não dão garantias. Contudo, como dito, certezas não existem. A sigla hit do momento — VUCA — deixa isso claro (deusas, como detesto siglas hipsterizadas). Vá lá, algumas certezas temos: todos morreremos; tudo está em movimento; a Terra não é plana. Fora isso, temos os objetos da especulação científica, que vão ora dizendo ora contradizendo os mecanismos que regem tal sinfonia. Então, o que importa? É ter consciência no aqui-e-agora: é respirar no presente, sabendo que nossas ações, em conjunto, constróem os futuros que serão resultantes do que fazemos.

Para mim, isso significa uma difícil decisão: deixar meu trabalho. Sim, eu pedi para sair, sem ter outro em vista. Decidi focar no meu doutorado, pois acredito que a contribuição mais concreta que eu posso fazer, na criação de futuros melhores, diversos, plurais, inclusivos, descolonizados, regenerados e, sim, com muito mais amor, é com o Design Ecossistêmico. Significa dar as caras para propor essa abordagem de design não-antropocêntrica e regenerativa de subjetividades e de ecossistemas. E buscar um lugar no mundo em que eu seja bem recebida, com o que sei fazer e com aquilo que, ao menos neste momento, volta a dar sentido para minha vida.

O que será depois que o doutorado acabar? Não sei! Não acho que eu precise saber, ainda. O tempo deve ser meu aliado, deve me mostrar que as grandes transformações requerem paciência, confiança e, sobretudo, no meu ver, um agir a partir do coração e dos valores mais profundos conectados ao amor à vida — a TODAS as formas de vida. E o tempo também deverá ensinar que não adianta eu querer fazer tudo no mesmo momento: eu, sozinha, não preciso (e não tenho nem como) abolir de uma única vez tudo que é dado como incorreto e insustentável e que foi criado pelo sistema-máquina-engolidor-de-vida. Não é minha conta, sozinha, a pagar, é nossa.

Meu papel é o de questionar, propor e testar novas formas de fazer o que estivemos fazendo até agora, JUNTO com vocês. Nessa teia da vida, eu sou apenas uma pontinha de luz, que vibra enredada no todo. É preciso que estejamos todas/as vibrando na mesma frequência de luz, para a grande mudança que podemos empreender — juntas, juntos, respirando no presente e criando novos futuros. Espero caminhar de coração aberto, segurando os trancos e os solavancos do caminho, aprendendo com novas amizades, com novos viajantes, novos ares, novos rumos, novas formas de estar em sociedade, novos modos de viver… Mas nunca, jamais, caminhando para esse “novo normal” que apenas repete incansavelmente os erros do passado.

Se sentiu convidada/o? Manda um alô, vamos somar nossas luzes ;)

Coral Michelin
02/08/2021
| 08/01/Semente Elétrica

Esses pensamentos têm influência de Edgar Morin, Bruno Latour, Ailton Krenak, Darcy Ribeiro, Donna Haraway, entre outros/as brilhantes pensadores/as que apontam caminhos para melhores futuros.

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Designer ecossistêmica, Mestre e doutoranda em Design. Pesquisadora em inovação, ecologia e métodos de design. Ativista da ecologia, poeta e ecofeminista.

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Coral Michelin

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Designer ecossistêmica, Mestre e doutoranda em Design. Pesquisadora em inovação, ecologia e métodos de design. Ativista da ecologia, poeta e ecofeminista.